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Estratégias Digitais

Anjos e unicórnios

Marcelo Martinez

Publicado em 04/09/2018 às 12:20

Nos últimos 250 anos, a humanidade foi impactada por diversos ciclos de desenvolvimento tecnológico. Todas eles trouxeram mudanças no comportamento humano e criaram enormes oportunidades. Empreendedores que souberam tirar proveito desses movimentos foram também responsáveis por grandes inovações que transformaram a realidade à sua volta e a vida das pessoas. Neste exato momento, vivemos uma nova fase de ruptura. A quarta Revolução Industrial representa a transição de todas os ciclos anteriores em direção ao mundo digital. São as plataformas digitais oferecendo condições perfeitas para que novos empreendedores ousados criem suas empresas, as startups, sempre à procura de um novo modelo de negócios repetível e escalável, ao redor de um produto ou serviço.

 

Um dos indicadores de sucesso dessa nova era é o surgimento das startups bilionárias, tão raras no início que passaram a ser chamadas de unicórnios. Aos poucos, elas se proliferaram e passaram a surgir às centenas mundo afora: em 2017 já haviam 224, segundo o site TechCrunch. Apesar de até então nenhuma delas estar no Brasil, em 2018 começamos a frequentar esse seleto grupo através de três startups de tecnologia: a 99, com a compra da chinesa Didi Chuxing; o Nubank, que recebeu um aporte de US$ 150 milhões; e o PagSeguro, com o maior IPO na Bolsa de Nova York desde a estreia da Snap. Nesta trilha, outras empresas com estratégias bem-sucedidas e apoio de investidores prometem em breve também participar deste grupo. Esse é o caso da Movile, detentora dos aplicativos iFood de delivery e PlayKids de conteúdos infanto-juvenis, e da Stone, fintech de meios de pagamento, ambas com soluções muito bem-estabelecidas, ocupando cada vez mais espaço no mercado.

O fato é que o amadurecimento de algumas startups nacionais somado com o otimismo conjuntural dos investidores, tem chamado a atenção de fundos globais para iniciativas em terras tupiniquins, sejam eles do tipo Venture Capital, formados por investidores que juntos aportam acima de R$ 500 mil em cada projeto em troca de participação nas empresas, ou de Private Equity, que investem quantias ainda superiores e participam ativamente da gestão das startups. O fato é que investidores estão de olho no Brasil, ávidos por altos retornos, mesmo que envolvam riscos e incertezas. Um dado que comprova essa intenção é um relatório recente da Associação Latino-Americana de Private Equity e Venture Capital (Lavca) que mostra que os investimentos em 2017 em startups superaram pela primeira vez US$ 1 bilhão na América Latina, uma alta de 128% na comparação com o ano anterior, e deste total, o principal destino desse capital foi o Brasil (45,4% do total), sendo a maior parte investido em marketplaces (34%), transportes (20%) e fintechs (20%).

Em relação às pequenas startups, as possibilidades de investimentos também aumentam a cada dia. Iniciativas de apoio baseadas em investidores-anjo, executivos bem-sucedidos com capital próprio suficiente e expertise para aportarem em empresas, vem crescendo e se tornando até enredos de programas televisivos. Além dos anjos, outros três modelos de financiamento também se proliferam no mercado: as aceleradoras de startups (iniciativas baseadas em mentoria e rede de contatos para desenvolvimento), os fundos de capital semente (que apostam em startups em estágios iniciais com promessa de crescimento acelerado), e as incubadoras (formadas em geral com o apoio público ou de grandes empresas privadas, disponibilizam espaço físico para as incubadas e focam em inovação e desenvolvimento dos negócios, mesmo que o projeto ainda seja bastante embrionário).

Um país que aposta no futuro, precisa criar condições de desenvolvimento para seus empreendedores. O Brasil ainda está longe de ser referência nesta área: temos uma das maiores cargas tributárias mundiais, nossa burocracia é conhecida por sua lentidão e ineficiência, e convivemos frequentemente com crises políticas e econômicas que atrasam o desenvolvimento do país. Entretanto ainda somos um país com DNA criativo, temos uma das maiores populações do mundo, e adotamos com certa facilidade inovações, em especiais as digitais. Talvez por aí esteja a oportunidade para nos destacarmos neste novo cenário. Caso contrário o melhor mesmo é continuar sonhando com o mundo de fantasias com anjos e unicórnios.

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Marcelo Martinez

Automação

Marcelo Martinez é engenheiro químico pela Poli-USP, pós-graduado em Marketing pela ESPM, com Mestrado em Administração pela FEA-USP e Doutorado em Administração pela FGV. Executivo com mais de 20 anos de atuação em empresas multinacionais, possui sólida vivência nas áreas de vendas, produtos e marketing, e experiência na elaboração e implementação de estratégias de negócios orientadas a resultados em diversos canais. Já foi membro efetivo de conselho consultivo de empresa de tecnologia, atuou como representante da indústria em entidades setoriais e participou de vários projetos de grande relevância, entre eles aquisições de empresas e implementação de Políticas Comerciais e Programa de Relacionamento. É palestrante em Congressos nacionais e internacionais e tem artigos publicados em revistas. Dê sua opinião sobre o artigo ou faça sugestões para nossos colunistas, envie seu e-mail.
 

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