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Cronófagos

Marcelo Medeiros

Publicado em 01/08/2011 às 17:45

Neste mês falamos com todos os profissionais cujo dia de trabalho insiste em acabar antes que a lista de tarefas programadas para aquele mesmo período. Todos os outros profissionais, além de merecerem minha inveja confessa, estão dispensados desta leitura - caso realmente ainda exista alguém nessa categoria em extinção. E, como se não bastasse o desafio de lutar diariamente contra uma agenda congestionada e muitas vezes incompatível com os princípios básicos de tempo e espaço, muitos de nós ainda enfrentamos mais um desafio perverso: a invasão dos cronófagos. Sim, caro leitor, seguramente em 10 segundos você concordará plenamente com esta denúncia.

 

 Em benefício dos que não se recordam desta palavra, visitemos então a etimologia abandonada no ensino médio: “cronófago” é mesmo aquele que se alimenta do tempo, principalmente dos outros. E, para desespero de Chronos, o deus grego que era a personificação do tempo do universo, o cronófago legítimo sempre tem boas ideias para ele, não necessariamente para você. E ainda por cima acha que seu papo é muito mais urgente que qualquer uma daquelas coisas que você tem para fazer e que mal cabem na sua agenda. Não raramente o cronófago fala bem e impressiona o mais gentil e desavisado dos interlocutores, subtraindo-lhe aquilo que vale como ouro e não se recupera jamais. Comum aos vários tipos portadores desta anomalia encontra-se a característica que lhes diferencia inequivocamente de todos os outros desafios catalogados na literatura empresarial: a absoluta incapacidade de perceber a linguagem corporal de suas vítimas, que gritam silenciosa, porém escancaradamente o desejo de encerrar a conversa e voltar a fazer o que lhes é mais importante.

 

Os cronófagos se classificam em vários tipos, segundo seu grau de periculosidade. Falemos somente dos mais comuns: o tipo 1, mais inofensivo de todos, é aquele que adora discutir amenidades bem no meio do incêndio corporativo. O futebol de domingo acaba ficando mais importante que a assinatura do contrato com o novo cliente. O tipo 2, já mais sofisticado e perigoso, quer explicar ideias inúteis e atribuir tarefas igualmente sem importância a seus interlocutores. Este deglutidor de minutos alheios tenta convencer a todos sobre suas opiniões para ficar milionário e conquistar o mundo. Efeito colateral da nocividade desta espécie é que ela fecha portas para pessoas brilhantes e suas ideias inovadoras, que serão incluídas na mesma vala comum: não serão ouvidas porque por ali já passou um cronófago a implodir a paciência alheia.

 

 Conheci eficientes neutralizadores de cronófagos ao longo de minha vida profissional. No entanto, nenhum chegou nem perto da determinação de Mauro, cujo sobrenome preservo aqui. Executivo bem sucedido e singular em sua abordagem de comunicação, via de regra imprevisível, uma vez ligou para o chefe do chefe do cronófago que lhe maltratava os tímpanos: “É mesmo verdade que você pediu ao fulano que me fizesse todas estas perguntas e distribuísse todas essas tarefas?”. Ao confirmar-se a suspeita de mentira e tráfico de influência, a figura prolixa que usava em vão o santo nome do chefe do chefe, jogou a toalha, constrangida. E foi cronofagocitar em outra freguesia. Aliás, este é um bom exemplo de defesa: como o cronófago não percebe linguagem corporal, seja objetivo e diga que você tem outras prioridades.

 

A tática anterior normalmente funciona bem nos dois tipos que acabamos de descrever, porém se o chato de plantão for um tipo 3, você vai precisar de muita criatividade já que a medicina corporativa ainda não encontrou vacina nem remédio. Isto porque o tipo 3, além de reunir as piores características dos dois anteriores, também tem a infelicidade de ser seu chefe. Ou seja, vai comer o seu tempo e depois vai cobrar por que você não fez o que devia ter feito. No entanto, registre-se, para o bem da verdade, que nem todo chefe tem práticas cronofágicas (respeita-se a controvérsia).

 

 Antes que o leitor comece a classificar cronófagos pela vida afora, vamos recordar uma máxima da administração: se você não gerencia sua agenda, alguém o fará por você. E não necessariamente da forma que você acha mais produtiva. Por isso, reflita sobre o número de reuniões ou projetos que começam por sua própria iniciativa e aqueles que partem de outras pessoas. Naturalmente, se você não desempenha uma posição de liderança em seu trabalho, é esperado que seja mais convidado do que originador em novas iniciativas e projetos. Porém, mesmo assim fique atento: alguém pode estar brincando com o seu tempo e evaporando uma de suas maiores riquezas, justo em um momento em que falta capital intelectual qualificado para satisfazer a demanda de expansão econômica de nosso país. E já estamos em agosto, mês de combate à cronofagia. Boa sorte!

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Marcelo Medeiros

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Marcelo Medeiros é diretor geral da AD VITAM, empresa de assessoria e execução em projetos de gestão empresarial e desenvolvimento de negócios. Marcelo dedicou mais de 20 anos de sua carreira ao segmento de TI, ocupando cargos executivos em multinacionais do setor. Foi presidente da Lenovo no Brasil e na região Andina, presidente da Ingram Micro no Brasil e diretor da IBM na América Latina. Dê sua opinião sobre este artigo ou faça sugestões para nossos colunistas, envie seu e-mail.
 

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