Na comédia Um Senhor Estagiário estrelada por Robert De Niro, um viúvo aposentado de 70 anos cansado de sua vida monótona, enxerga no estágio em uma empresa de moda on-line a oportunidade para mudar a sua rotina e se reinventar. No novo emprego ele se depara com um ambiente dominado por jovens, totalmente diferente daquele que estava acostumado, mas com persistência, supera as diferenças e ganha o respeito de todos compartilhando sua sabedoria adquirida em anos de experiência com os colegas de trabalho.  


Como na ficção, com o aumento da expectativa de vida propiciado pelos avanços na medicina e um estilo mais saudável, cada vez mais os profissionais retardam sua aposentadoria e buscam uma oportunidade de permanecerem ativos no mercado de trabalho. Apesar dessa vontade, a realidade, entretanto, é dura e desmotivadora. Em um país cuja população de idosos, segundo IBGE, deve dobrar nos próximos 25 anos, saltando dos atuais 13,5% para 24,5% do total, um levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua aponta que o desemprego nesta parcela da população saltou de 18,5% em 2013 para 40,3% em 2018. 

O ageísmo é uma atitude negativa baseada na idade, incluindo estereótipos e discriminação. Semelhante ao racismo e ao sexismo, o ageísmo pode ser praticado de diversas formas no mundo corporativo, como em atitudes e práticas discriminatórias no trabalho, condutas e políticas institucionais que excluem ou limitam a participação dos idosos, ou outras manifestações que levem a disparidades salariais ou dificuldade em encontrar emprego. Segundo estudo recente de uma associação americana de pessoas aposentadas, mais de 60% dos entrevistados relataram ter sofrido alguma situação de ageísmo em suas vidas.


De fato, apesar de existir espaço em todos os setores para as competências de trabalhadores mais velhos, profissionais com mais de 50 anos precisam lutar mais do que a média para encontrar emprego. Dentre as falácias que fomentam o preconceito contra o idoso, as mais comuns sugerem, entre outros, que a população “prateada” possui saúde frágil, não consegue acompanhar o ritmo da era digital e que precisam se aposentar para abrir espaço para os jovens. 

Combinar a audácia dos mais novos com a experiência dos mais velhos é o caminho para o sucesso. Cada geração tem seu próprio conjunto exclusivo de habilidades, crenças e competências e, juntos, podem impulsionar organizações, e até sociedades, a conquistas sem precedentes. Empresas que enxergam essa vantagem estimulam a diversidade geracional, criando um ambiente colaborativo para que cada parte compreenda melhor os processos de pensamento e os métodos de trabalho do outro. 


Outro ponto é que com a idade vem algo que não se ensina nas escolas: a experiência. Desde executivos a empreendedores, em um mundo rápido e dinâmico, cada vez mais exige-se deles a capacidade de tomada de decisões baseada em intuição. Um profissional com essa habilidade e vivência de acertos e erros é sem dúvida peça-chave de qualquer empresa, em qualquer setor. 


Detectar os males do ageísmo para uma sociedade e agir contra eles é um papel de Estado, e neste sentido, leis e políticas públicas precisam ser estimuladas, como fez o nosso governo em novembro lançando uma proposta de redução de encargos para incentivar empresas a contratar pessoas acima de 55 anos. No mundo corporativo, empresas também sentem o efeito dessa onda como o Google, por exemplo, que após ser autuado nos EUA em milhões de dólares por discriminação por idade, instituiu políticas internas sobre o tema, orientando colaboradores sobre condutas anti-ageísmo. 


O combate ao preconceito de idade deve ser irrestrito e incansável. Promover a conscientização, a educação e o contato entre diferentes gerações são as medidas mais eficazes para combater o ageísmo.  Mais do que respeito, precisamos estimular a inclusão dos mais velhos no mercado de trabalho e entender a sua contribuição, refletindo sobre a passagem do tempo e as conquistas advindas junto ao processo de envelhecimento. Afinal, envelhecer ainda é o melhor destino possível para todos nós. 


Marcelo Martinez

Marcelo Martinez

Marcelo Martinez é engenheiro químico pela Poli-USP, pós-graduado em Marketing pela ESPM, com Mestrado em Administração pela FEA-USP e Doutorado em Administração pela FGV. Executivo com mais de 20 anos de atuação em empresas multinacionais, possui sólida vivência nas áreas de vendas, produtos e marketing, e experiência na elaboração e implementação de estratégias de negócios orientadas a resultados em diversos canais. Já foi membro efetivo de conselho consultivo de empresa de tecnologia, atuou como representante da indústria em entidades setoriais e participou de vários projetos de grande relevância, entre eles aquisições de empresas e implementação de Políticas Comerciais e Programa de Relacionamento. É palestrante em Congressos nacionais e internacionais e tem artigos publicados em revistas. Dê sua opinião sobre o artigo ou faça sugestões para nossos colunistas, envie seu e-mail.