Na primavera de 2018, a universidade de Yale, uma das mais antigas e prestigiadas do mundo, lançou um curso para ensinar alunos sobre felicidade e bem-estar. A aceitação foi imediata e sem precedentes. Logo no primeiro ano, mais de 1,2 mil alunos, cerca de um quarto do corpo discente da universidade, se inscreveram no curso, tornando-o o mais popular em cerca de três séculos de história da Yale. Entendendo o potencial e alcance do tema, a universidade disponibilizou uma versão online gratuita do curso sob o título ‘The Science of Well Being’,em uma tradução livre, A Ciência da Felicidade. O sucesso desde então foi estrondoso, alcançando milhares de alunos em todo mundo, e em março, no pico da pandemia, ultrapassando a marca de 2 milhões de matriculados. 
Os números da Yale são incríveis, mas a dúvida de muitos é se a felicidade pode ser realmente aprendida. De acordo com várias instituições de ensino, a resposta é sim. Na universidade de Harvard, por exemplo, uma das pioneiras a lecionar sobre o tema, ainda hoje, cerca de dez anos depois da primeira turma, o curso é um dos mais concorridos do campus.

No mundo e no Brasil não é diferente: em uma rápida busca na internet é muito fácil encontrar diversos cursos sobre Felicidade, Bem-estar e Autorrealização, inclusive algumas pós-graduações. A popularidade desses cursos é crescente e acompanha um aumento da conscientização da população sobre a importância da saúde mental para se enfrentar os problemas contemporâneos, alguns deles potencializados com o impacto da pandemia em nossas vidas, em que a solidão é quase totalmente inevitável. 

A felicidade é um tema central de reflexão desde a antiguidade. Filósofos do período helênico construíram amplas concepções sobre o que torna a vida boa de ser vivida. Estes pensamentos foram a base para a pesquisa psicológica e está na agenda desde projetos individuais até o planejamento de organizações e Estados. De forma simplificada, felicidade é um sentimento, um estado de espírito que alcançamos através de nossas escolhas e reações. Ela vem naturalmente, através da autoconsciência e da identificação de emoções à medida que elas surgem. O fato é que para algumas pessoas ainda é difícil identificar esse sentimento como afirma Travis Bradbury em seu best-seller Emotional Intelligence 2.0, no qual aponta que apenas 36% das pessoas são capazes de reconhecer que são felizes.  Em tempos difíceis, é natural que as pessoas se perguntem mais sobre o que é a felicidade e onde podem encontrá-la.

Dada a situação atual de isolamento, nunca se questionou tanto a importância de ser feliz. Segundo Martin Seligman, um dos pioneiros em Psicologia Positiva, indivíduos felizes são mais saudáveis e, portanto, menos propensos a contrair doenças, inclusive as virais. Aliás, a felicidade é contagiosa. Pessoas felizes fazem com que outros ao seu redor também sorriem mais, apreciem a vida, expressem gratidão. Uma vida agradável para elas consiste em relações positivas, verdadeiras e duradouras.  A felicidade também rompe barreiras e transforma pessoas.

Um bom exemplo para os dias atuais são pessoas que apesar de nunca terem feito uma videoconferência, aprenderam a participar de lives e festas virtuais com toda a família. O que fez com que essas pessoas se adaptassem a essa nova realidade? Apenas a obrigação e a necessidade? Não, sem dúvida o desejo por afeto, um dos ingredientes mais poderosos da felicidade. 

Aprender a ser feliz é mais do que uma aula sobre sentimentos; é o que nos faz sair da cama e enfrentar nossos desafios todos os dias. É encontrar o propósito e o sentido de vida. É o que nos faz descobrir forças que não sabíamos que tínhamos nos momentos mais complicados. Em tempos de corona, aprendemos que a felicidade não é um propósito, é um caminho. Ela não está no futuro, como muitos jovens acreditam, nem no passado, no caso dos idosos. Ela só pode ser projetada no presente, vivendo-a dia após dia. Sem dúvida os cursos nos ajudarão a entender mais sobre o assunto, mas o sentido da felicidade depende da nossa vontade de caminhar sobre esse trajeto, aprendendo, experimentando e ensinando. 

Marcelo Martinez

Marcelo Martinez

Marcelo Martinez é engenheiro químico pela Poli-USP, pós-graduado em Marketing pela ESPM, com Mestrado em Administração pela FEA-USP e Doutorado em Administração pela FGV. Executivo com mais de 20 anos de atuação em empresas multinacionais, possui sólida vivência nas áreas de vendas, produtos e marketing, e experiência na elaboração e implementação de estratégias de negócios orientadas a resultados em diversos canais. Já foi membro efetivo de conselho consultivo de empresa de tecnologia, atuou como representante da indústria em entidades setoriais e participou de vários projetos de grande relevância, entre eles aquisições de empresas e implementação de Políticas Comerciais e Programa de Relacionamento. É palestrante em Congressos nacionais e internacionais e tem artigos publicados em revistas. Dê sua opinião sobre o artigo ou faça sugestões para nossos colunistas, envie seu e-mail.