Automação
A crise é a mãe de todas as invenções
Marcelo Martinez
Publicado em 07/06/2016 às 16:38
Um Corvo, sucumbindo de sede, viu lá do alto um jarro, e na esperança de achar água dentro, voou até ele com muita alegria. Quando lá chegou, descobriu para sua tristeza, que o jarro continha tão pouca água em seu interior, que era impossível alcançá-la com seu curto bico. Ainda assim, ele tentou de tudo para beber a água, mas com um bico tão curto, todo seu esforço foi em vão. Desesperado, ele pegou tantas pedras quanto podia carregar, e uma a uma, colocou-as dentro do jarro. Ao fazer isso, logo o nível da água ficou ao alcance do seu bico, e desse modo ele salvou sua vida.
Essa famosa fábula de Esopo ilustra bem como a persistência e criatividade são peças fundamentais para sobreviver em tempos difíceis. Em 2015, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o PIB brasileiro teve um recuo de 3,8% - o maior em 25 anos. Somado a esse dado negativo, a inflação geral neste ano alcançou 10,67% medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a maior desde 2002, fazendo com que o carrinho de compras do consumidor encolhesse e que o varejo e a cadeia ao seu redor, sentissem o golpe.
Todos reconhecem, mesmo os pró-governo, que a economia brasileira está muito mal: recessão, inflação, desemprego, queda na renda, são alguns dos indicadores que mostram o fraco desempenho de nosso país. A conjuntura dessa crise é sem dúvida uma piores pelas quais já passamos nos últimos anos, pois além da pressão inflacionária, a retração econômica de consumo sem data para acabar mina qualquer plano de negócios de recuperação em curto prazo, aumentando a inadimplência e forçando as empresas a reduzirem suas operações e investimentos ao máximo para sobreviver a esse período complicado. Além disso, com as famílias endividadas e a taxa de desemprego crescendo a cada dia, o poder de consumo do brasileiro deve chegar ao fim deste ano no mesmo nível de 2010. É como se o Brasil em seis anos perdesse uma Argentina, encolhendo cerca de R$ 1,6 trilhão. O fato mais preocupante é que o consumo, um dos motores de crescimento de um país, desde 2008, crescia ano após ano.
Mesmo se acreditarmos em uma agenda econômica e política mais eficiente com o novo governo, o quadro de debilidade atual implica em um cronograma de recuperação ainda extenso. Antes de pensar em consumo, as famílias e empresas precisam pagar as contas, e na contramão, as perspectivas de inflação para 2016 ainda são altas. Além do mais, as empresas que dependem de crédito para manutenção dos seus negócios, precisam recuperar a confiança do sistema financeiro, ampliando linhas e reduzindo juros.
A culpa pode ser dos outros, mas a solução sempre será nossa. Diferente da história recente, não se pode mais contar apenas com o tempo; precisamos nos reinventar. Infelizmente para alguns, não vivemos na Suíça, país menor do que o estado do Rio de Janeiro, que para nossa inveja votará em junho um projeto que estabelece uma renda mínima de R$ 9 mil por adulto por mês. Entretanto, vivemos em um país com um PIB três vezes maior, com uma enorme reserva de recursos naturais e humanos, e principalmente, uma cultura de superação acostumada a crises. Não há dúvida que superaremos esse momento complicado mais uma vez, como escreveu Esopo há cerca de 2.600 anos, com criatividade e muito trabalho. A pior crise é aquela que nos impede de reagirmos – as revendas precisam se transformar, e sem dúvida, não só sobreviverão como se tornarão mais fortes para o futuro. Reduzir custos, repensar investimentos, melhorar desempenho, reinventar portfólio, descobrir novos nichos de clientes, entre outros, são lições de casa que devem ser praticadas diariamente. Vamos fazer a nossa parte.

