Automação
A culpa é das estrelas
Marcelo Martinez
Publicado em 05/10/2015 às 16:02
As análises econômicas já evidenciavam que a crise que vivenciamos era apenas uma questão de tempo. Por anos seguidos o governo perdeu o controle sobre seus gastos e arruinou a confiança construída anos após anos de ajustes econômicos bem-sucedidos. Além disso, soma-se agora o ambiente hostil político pelo qual estamos passando. É natural que em momento de fragilidade popular como a de nossa presidente, a disposição do Congresso e aliados em ajudar o governo para aprovar medidas necessárias, mas impopulares, também seja mais tímida, porém com a redução do poder de compra do povo a cada dia, a falta de perspectiva de melhora, o aumento do desemprego e da dificuldade para quitar dívidas, e principalmente, a perda da paciência da população, indica, por mais incrível que pareça, que o pior ainda está por vir.
Para os especialistas não há dúvidas que se trata de uma crise interna, visto que as grandes economias diferentemente do que algumas autoridades insistem em dizer, passam por um momento favorável, com crescimento médio global estimado de 3,3% para 2015. Mesmo a gigante China que alguns apontam como nosso grande risco, crescerá apenas “6,8%” enquanto o Brasil tombará algo ao redor de 2% este ano. Além disso, contamos com o efeito devastador das revelações da Lava-Jato e do recente rebaixamento da nossa nota para uma categoria negativa pela agência de classificação de risco Standard & Poor’s, que colocou o Brasil em uma lista de países como Grécia e Venezuela e que acabará por afastar alguns fundos de pensão estrangeiros que injetam no mercado trilhões de dólares de crédito em condições favoráveis de prazo e juros. Estima-se que do total de 20 trilhões de dólares de oferta de crédito disponível, apenas 5 estão disponíveis para países classificados em grau especulativo, e pior, com juros que podem superar a taxa de 10% ao ano, contra 1% a 5% daqueles com grau de investimento. O efeito da perda do selo de bom pagador só agrava a perspectiva de um país já abalado pela falta de confiança de que o governo conseguirá recuperar a credibilidade e realizar os ajustes necessários para a retomada do crescimento.
Em não se fazendo a lição de casa, parte-se para os remédios amargos. Além do aumento de impostos como a ressuscitação da CPMF, outro deles é a taxa Selic, para qual cada aumento de 1 ponto percentual representa um gasto adicional com juros de 15 bilhões de reais ao ano. Quando a Selic aumenta, os bancos preferem emprestar ao governo, porque paga melhor. Já quando ela cai, os bancos vão ao consumidor para conseguir um lucro maior. Se pensarmos que em outubro de 2012 chegamos à 7,25% e que algumas consultorias já apontam para 2016 algo ao redor de 18%, podemos prever os efeitos cruéis dessa flutuação ao consumidor e para a recessão. Outro ponto crítico com impacto direto na inflação é a taxa cambial, prevista para 2016, em cenários mais críticos, próxima a R$4,50 e nos mais realistas, a R$4,20.
O setor de Automação Comercial convive com produtos com custo dolarizado, precisa de crédito para movimentar sua cadeia e depende da saúde do mercado e de investimentos para crescer. Outro dia, em conversa com um presidente de uma multinacional do setor, concluímos que a conjuntura dessa crise é uma piores pelas quais já passamos nos últimos anos, pois além da pressão inflacionária, a retração econômica de consumo sem data para acabar mina qualquer plano de negócios de recuperação em curto prazo, aumentando a inadimplência e forçando as empresas a reduzir suas operações e investimentos ao máximo para sobreviver a esse período complicado.
O fato é que nosso país está acostumado a superar grandes crises apenas com a força de sua pujança interna. Trabalhar juntos, em prol de um Brasil melhor, em torno de uma economia forte é o dever de todos neste momento. A indústria de TI já passou por momentos similares e sempre conseguimos nos reerguer. Acreditar, e trabalhar duro, em torno de um objetivo comum passa a ser praticamente uma missão diária. Nas recessões anteriores, a economia levou no máximo seis trimestres para se recuperar. A crise, com muito mais enfoque político do que econômico, será superada. Não tenho a menor dúvida disso. Até lá, é hora de arregaçarmos as mangas e fazer acontecer. O setor de automação já se mostrou forte o suficiente para superar qualquer tipo de adversidade. Tão próspero que mostra longevidade. Afinal, não teríamos tido até agora 17 edições consecutivas de uma das maiores feiras do setor, a Autocom, onde desde 1997 reúne os principais líderes e players da indústria.
Talvez a famosa frase do sucesso A Culpa é das Estrelas na qual um dos personagens relata seu medo de ser esquecido não sirva para nós. A culpa pode até ser das estrelas, mas às vezes o melhor mesmo é simplesmente esquecer que elas existem e que não nos estão ajudando. Vamos fazer a nossa parte como sempre.

