Automação
A revolução dos Blockchains
Marcelo Martinez
Publicado em 06/02/2017 às 12:11
Há uma década, uma contaminação em plantações norte-americanas de espinafre por Escherichia Coli, uma bactéria relativamente inofensiva encontrada nas vísceras de animais, contaminou centenas de pessoas neste país, levando inclusive algumas a óbito. Preocupados, alguns consumidores pararam de consumir verduras e os restaurantes retiraram o espinafre do cardápio. O fato é que, apenas nos EUA, mais de mil surtos são causados por alimentos todos os anos, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças do país (CDC, na sigla em inglês). Os CDCs estimam que aproximadamente 48 milhões de pessoas são intoxicadas anualmente, com 128 mil hospitalizações e 3 mil mortes. Imagine agora o benefício se pudéssemos rastrear os focos da contaminação e restringir o problema, impedindo que produtos contaminados sejam comercializados. Essa é a intenção de um recente projeto divulgado pelo Walmart junto com a IBM e a Universidade de Tsinghua, em Pequim, para acompanhar digitalmente o movimento da carne de porco na China. Se for bem-sucedido, esse teste modificará a maneira como o Walmart, que atende cerca de 260 milhões de clientes por semana, monitora alimentos e toma providências quando algo sai errado, gerando grandes avanços em segurança alimentar e redução de custos.
A inovação que está possibilitando esse e outros inúmeros avanços chama-se Blockchain, uma nova tecnologia de banco de dados que surgiu junto com o Bitcoin em meados de 2008. Resumidamente, o Blockchain foi pensado como uma forma segura para se transferir Bitcoins de uma pessoa para outra, tendo em vista uma forte desconfiança em uma moeda que não possui nenhuma regulamentação cambial de bancos ou Estados. O Blockchain funciona como um livro de registro de transações feitas no mundo digital, em que a autenticidade e a integridade das informações são validadas por todos integrantes da rede e armazenadas em blocos criptografados e encadeados, como em uma corrente. Quando uma nova transação acontece, busca-se um novo bloco querecebe um Proof of Work (POW), código composto por números encriptados que serve como protocolo de que aquela transação é válida, impedindo que informações anteriores já registradas sejam apagadas ou alteradas.As
As aplicações dessa nova tecnologia são inúmeras desde um livro público, em que todas suas cópias são atualizadas instantaneamente, não importa onde estejam, até o fim da necessidade de cartórios para reconhecer oficialmente documentos. No setor financeiro, o destaque é o Consórcio R3, uma iniciativa que reúne mais de 60 grandes organizações ao redor do mundo, entre elas a Bovespa, empresas de seguros como a MetLife e China Merchants Bank, além dos bancos brasileiros Itaú e Bradesco e do banco espanhol Santander. Em outros segmentos, empresas como a Ascribe (Artes), a Genecoin (Medicina), a Wave (Comércio Exterior) e as Bitproof e UProov (Jurídico) surgem a cada dia oferecendo novas utilizações para os Blockchains. Uma dessas empresas é a Provenance, uma iniciativa que pretende registrar cada detalhe do que acontece na cadeia de suprimento de varejo e tornar todas essas informações pesquisáveis em tempo real para os consumidores. Em resumo, é como escanear o código QR de uma lata de palmito no supermercado e saber exatamente onde ele foi plantado e colhido, quem o certificou, onde foi enlatado, entre outras informações, todas com marcação de hora e data de cada etapa.
Ainda não se sabe todo o potencial de negócios dos Blockchains, mas sabe-se que uma revolução nos espera. A tecnologia Blockchain é transparente, descentralizada, segura, confiável e automatizada, e com tudo isso, possibilita a criação de novos modelos de negócios, além de acesso a outros mercados. Lembre-se, em outubro, o Walmart já começou a rastrear dois produtos com o Blockchain: um produto embalado nos EUA e carne de porco na China. Em breve milhares de outros produtos serão incluídos também. Vamos entrar nessa corrente e fazer negócios.

