Automação
Colaborar para competir
Marcelo Martinez
Publicado em 09/09/2015 às 17:00
Nas últimas décadas, tem-se observado uma intensificação das transformações culturais, sociais, políticas e principalmente econômicas. A globalização proporcionou uma crescente integração entre os mercados e consequentemente um acirramento concorrencial entre as organizações. Essa nova ordem competitiva vigente denota a necessidade das empresas a repensarem a todo instante seu modelo de negócios, buscando alternativas à estratégia de competição simples e acirrada.
Independentemente do porte da empresa, relacionamentos competitivos que partem do princípio de que duas ou mais empresas se relacionam a partir de interesses divergentes, no todo ou parcialmente, estão cada vez mais fragilizados. As teorias da competição pautadas em vantagens obtidas apenas por meio da rivalidade entre organizações, apesar de pressionarem e a estimularem as empresas a inovar e a melhorar seus processos, exigem recursos, tempo e energia, algo escasso no setor de Automação. Do outro lado, os relacionamentos colaborativos baseiam-se em relacionamentos iniciados e consolidados a partir de interesses convergentes, gerando uma interdependência positiva entre as empresas. Mais especificamente, admite-se que nesse modelo as empresas parceiras podem melhorar seus resultados conjuntamente desenvolvendo novas plataformas tecnológicas, fomentando inovação, aumentando a capacidade de negociação e de resolução de conflitos e criando valor para os parceiros envolvidos.
Nesta linha é que veio a última notícia que surpreendeu o mercado de tecnologia: a Totvs, gigante brasileira no mercado de sistemas de gestão integrada (ERP), acaba de comunicar um acordo para comprar a totalidade das ações da Bematech, líder na comercialização de soluções para o varejo, por aproximadamente R$550 milhões em dinheiro e ações. Assim como costuma fazer com suas aquisições, a Totvs vai integrar a Bematech às suas operações e retirar suas ações de circulação na Bolsa assim que o processo de venda da companhia for concluído e aprovado pelas assembleias e pelo Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). No entanto, a nova controladora planeja manter a marca em sua carteira de produtos, principalmente por conta da forte presença no varejo.
O mercado reagiu bem a essa notícia: no dia útil seguinte ao comunicado, as ações da Bematech fecharam em alta de 42,8%, e os ativos da Totvs avançaram 2,7%. Apesar de concorrentes em alguns segmentos, a leitura dos especialistas é de que há complementariedade de ambas em serviços, soluções e clientes que propiciará novas ofertas conjuntas, uma melhor integração de time, um canal de distribuição mais consolidado, e por consequência, uma empresa mais rentável.
Não é de hoje que as operações de fusões e aquisições (F&A) vêm se firmando como uma tendência global no mundo dos negócios. Em um ambiente competitivo e em transformação contínua, partindo-se do pressuposto de que a empresa adquirida irá contribuir estratégica ou financeiramente para a adquirente, fazer um F&A pode significar um caminho curto e rápido para ampliar a competitividade e a rentabilidade. No Brasil, as operações de F&A foram impulsionadas nos últimos anos a partir de mudanças na orientação estratégica da economia nacional, em especial, no setor de tecnologia. De acordo com um estudo publicado pela empresa KPMG em 2015, neste segmento, empresas de mobilidade, de análise de dados e de segurança são as que mais participam de processos de F&A. Em relação aos seus motivadores, destacam-se a possibilidade de acesso a novas propriedades intelectuais (50%), a aquisição de novas tecnologias e produtos (41%) e o desejo de entrar em novos mercados (41%).
Sejam quais são os motivos que levam à F&A, o fato é de que se bem estudadas e implementadas, o resultado é uma conveniente sinergia para crescimento e aumento de lucratividade, oportunidade que não se restringe apenas a fabricantes, mas a qualquer integrante do mercado, como observamos nas recentes aquisições da BP Solutions pela Officer, e da CDC e Network1 pela Scansource.
Em um ambiente de incerteza e transformação como o que vivemos no setor de Automação, o desenvolvimento de relações de cooperação ao nível interorganizacional tornam-se para muitos casos essenciais para a sobrevivência das empresas em longo prazo. Apesar de complexo, principalmente em termos culturais, realizar fusões estratégicas pode fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso em um ambiente de grandes mudanças. Essa recomendação também é válida para as revendas que enxergam neste modelo a possibilidade de obter uma maior participação no mercado e de amplitude geográfica de atuação, um crescimento da diversificação (tanto da linha de produtos quanto de negócios), um aporte de novas tecnologias, um parceiro para verticalização (integração da cadeia de negócios), entre outras vantagens. Como disse no título desse artigo, colabore para competir. Seu concorrente possivelmente está pensando nisso também.

