Sem dúvida, a liderança da Netflix nunca esteve tão ameaçada.

Uma onda de novas plataformas de streaming de vídeos promete sacudir o mercado. A última gigante a anunciar sua pretensão em participar desse segmento em plena expansão foi a Apple, que depois de anos operando à margem dessa indústria anunciou em sua última convenção de produtos em Cupertino, cidade do estado americano da Califórnia, que chegará ao mercado de mais de 100 países, incluindo o Brasil, no próximo dia 1o de novembro com preços bem abaixo do líder de mercado e assinaturas gratuitas aos compradores de seus hardwares. Após o anúncio, as ações dos principais competidores de serviço de streaming caíram, afinal tratava-se de uma grande empresa com muito dinheiro em caixa, pressionada por projeções de queda de vendas de seus principais produtos, com muito apetite para crescer em um mercado com taxas projetadas de crescimento ao redor de 20% ao ano entre 2019 e 2025. 

Sem dúvida, a liderança da Netflix nunca esteve tão ameaçada.  Além da chegada da Apple, outros gigantes do entretenimento chegarão em breve ao mercado com um extenso catálogo de filmes e produções como a NBC Universal da Comcast, e a WarnerMedia da AT&T que reunirá conteúdos de estúdios como a HBO, Warner Bros, Cartoon Network, CNN, DC Comics e Esporte Interativo. Outra, que deverá sacudir o mercado com a expectativa de conseguir 90 milhões de assinantes até 2025, é a Disney que lançará seu serviço nos Estados Unidos e Canadá onze dias após a Apple, contando em seu catálogo com franquias de peso do entretenimento como a Marvel, Star Wars, National Geographic e ESPN. 


Um efeito imediato com o aumento da concorrência é a queda de preços. No Brasil onde a Netflix reina absoluta há anos e comercializa seu pacote mais básico à R$21,90, os efeitos dessa disputa já começaram a chegar. No mesmo dia do anúncio global da Apple TV+, a Amazon Prime, há três anos no mercado brasileiro, reposicionou seu serviço para R$ 9,90 mensais, mesmo preço da Apple, e ofereceu para seus assinantes além do acervo de streaming do Prime Video, Prime Music, Prime Reading e Twitch Prime, frete grátis em todas as compras de seu site para os estoques do Brasil. 


Reconhecendo a eminência de perda de assinantes a Netflix vem se mexendo e investindo bilhões de dólares em conteúdos e marketing. Mesmo assim, segundo a consultoria de dados Jumpshot, a sua participação de mercado nos EUA caiu de 72% no início de 2018 para 65% no final de junho de 2019, e pela primeira vez em oito anos, a empresa perdeu cerca de 130 mil assinantes no segundo trimestre, provocando uma queda de mais de US$ 24 bilhões no seu valor de mercado. 


Ainda é cedo para apostar em alguém, mas é improvável que qualquer um desses gigantes da mídia e da tecnologia dominem o mercado sozinhos. Mesmo usando todas as suas armas, não será fácil manter um catálogo de filmes atualizado e interessante para o assinante. Além disso, a adaptação inclui modificações na operação em si, afinal ir direto a milhões de consumidores exigirá todos os tipos de tarefas confusas, como atendimento ao cliente e cobrança, que há muito tempo era relegado a parceiros de distribuição. Outro investimento alto será na mão-de-obra especializada em tecnologia, incluindo cientistas de dados, engenheiros de software e designers de produtos, para construir e manter suas plataformas de streaming. Nada disso sairá barato. Basta perguntar à Disney, que gastou cerca de US$ 2,6 bilhões na aquisição da BAMTech, uma empresa especializada em tecnologia de streaming. A própria Disney já disse que não espera que seu serviço dê lucro até 2024, mesmo com seu catálogo turbinado com a recente aquisição da 20th Century Fox. 


Estima-se quase 1 bilhão de assinantes nos próximos cinco anos sendo disputados por diversas plataformas, um número notável considerando que este serviço não existia há uma década atrás. A Apple, sabe disso e acredita que terá mais de 100 milhões de assinantes em três anos, devido à força de sua base de varejo da Apple Store e iPhone de quase 1 bilhão de usuários e na sua experiência bem-sucedida no segmento de streaming de música, no qual, apesar de entrar no mercado apenas em de 2015, quase uma década depois do líder Spotify, assumiu recentemente a liderança do mercado americano com mais de 60 milhões de usuários. Resta saber se com outros concorrentes mais robustos, a tarefa agora será tão fácil. 

Marcelo Martinez

Marcelo Martinez

Marcelo Martinez é engenheiro químico pela Poli-USP, pós-graduado em Marketing pela ESPM, com Mestrado em Administração pela FEA-USP e Doutorado em Administração pela FGV. Executivo com mais de 20 anos de atuação em empresas multinacionais, possui sólida vivência nas áreas de vendas, produtos e marketing, e experiência na elaboração e implementação de estratégias de negócios orientadas a resultados em diversos canais. Já foi membro efetivo de conselho consultivo de empresa de tecnologia, atuou como representante da indústria em entidades setoriais e participou de vários projetos de grande relevância, entre eles aquisições de empresas e implementação de Políticas Comerciais e Programa de Relacionamento. É palestrante em Congressos nacionais e internacionais e tem artigos publicados em revistas. Dê sua opinião sobre o artigo ou faça sugestões para nossos colunistas, envie seu e-mail.