Uma famosa companhia de seguros encontrou uma maneira criativa de dizer “Be my Valentine” no último dia 14 de fevereiro. Bastava o usuário carregar uma selfie no aplicativo da empresa para em poucos minutos receber em seu smartphone uma proposta de apólice de seguro personalizada. A verdadeira razão dessa inocente brincadeira era o uso de um algoritmo de análise facial que junto com outros dados do interessado estimava com mais precisão riscos da cobertura para estipular um valor mais “justo” do prêmio do seguro. A polêmica veio logo em seguida; defensores do direito do consumidor e órgãos reguladores criticaram a ação alegando que o uso de características faciais, além de intruso, poderia ser utilizado como justificativa para uma eventual recusa de coberturas, ultrapassando o aspecto comercial para uma discussão ética.  O fato é que, com a disponibilização de grande quantidade de dados, o setor de saúde está passando por uma profunda transformação. Diversas empresas conectadas à área de Ciências da Vida estão utilizando mais e mais informações para alimentar modelos avançados estatísticos e salvar não só dinheiro, mas a vida de pessoas.   As aplicações são inúmeras e promissoras. Alguns hospitais e centros médicos já utilizam de bancos de dados de pacientes para melhorar atendimento e resultados, fornecendo tratamentos personalizados e oportunos, além de reduzir custos e erros humanos. Um dos usos mais comuns, já adotado em alguns países, são os Registros Eletrônicos de Saúde (EHRs), nos quais cada paciente tem seu próprio prontuário digital com informações completas do seu histórico médico, incluindo alergias, resultados de exames laboratoriais, dados demográficos, entre outros.  De acordo com a consultoria HiTech, 94% dos hospitais americanos já adotam o compartilhamento de EHRs melhorando a eficácia dos tratamentos e reduzindo seus gastos, e a Europa segue o mesmo caminho.  Para as seguradoras, como era de se esperar, os ganhos com o uso de big data são enormes. Um exemplo, como citado no início desse texto, é a busca de indícios que possam prever doenças precoces em segurados ou grupos sociodemográficos, fornecendo uma análise mais precisa dos riscos e dos gastos por cobertura. Várias iniciativas estão sendo lideradas pelo setor ao redor do mundo também no aspecto preventivo, como a da Discovery, empresa sediada na África do Sul que em parceria com outras seguradoras oferece o Vitality, um programa de recompensas para pessoas que se exercitam e buscam uma melhor qualidade de vida. Outro caso parecido é o aplicativo Attain, desenvolvido em parceria pela Apple e a seguradora norte-americana Aetna para compartilhamento de dados através do relógio inteligente, com a devolutiva de metas de atividades e notificações de saúde personalizadas para os usuários. Na medicina as aplicações também são promissoras, como no uso de análises preditivas, identificando e antecipando eventos médicos e fornecendo planos de tratamento mais eficazes de modo a reduzir óbitos e internações longas, custosas e por vezes, desnecessárias. Governos também utilizam dessa tecnologia na saúde pública, por exemplo, para o planejamento estratégico de suas ações, identificando mapas de riscos e de epidemias e obtendo insights para priorizar unidades de atendimento e especialidades.  Há também o uso de big data para desenvolvimento de novas tecnologias e remédios. O Google, através de sua subsidiária, a Verily, lançou recentemente o Projeto Baseline, uma iniciativa em parceria com a Duke University e a Stanford Medicine, no qual pretende coletar dados de milhares de pessoas ao redor do mundo para acelerar pesquisas clínicas e construir novas tecnologias e produtos relacionadas à prevenção e cura de doenças. Outro produto em ascensão é a análise de dados genômicos de pacientes para mapeamento de riscos futuro à saúde para definição precoce dos melhores tratamentos.  Infelizmente, apesar dos avanços, o setor ainda adota lentamente as novas tecnologias, mas o envolvimento de gigantes de tecnologia nesta indústria promete acelerar esse processo. A Verily levantou em janeiro US$ 1 bilhão de investidores para ampliar parcerias estratégicas, desenvolver seus negócios e fazer aquisições. Lentes de contato para leitura de níveis de glicose, sapatos que podem rastrear o peso e até detectar quedas, e colheres inteligentes que facilitam a alimentação de pessoas com distúrbios de movimento, são algumas das inovações em desenvolvimento pela empresa. O próprio Tim Cook, executivo-chefe da Apple,  disse na CNBC no início deste ano que a “maior contribuição da Apple para a humanidade” viria de seu trabalho na área da saúde. Sem dúvida, é o big data revolucionando o que temos de mais valioso em nossas vidas.  

Marcelo Martinez

Marcelo Martinez

Marcelo Martinez é engenheiro químico pela Poli-USP, pós-graduado em Marketing pela ESPM, com Mestrado em Administração pela FEA-USP e Doutorado em Administração pela FGV. Executivo com mais de 20 anos de atuação em empresas multinacionais, possui sólida vivência nas áreas de vendas, produtos e marketing, e experiência na elaboração e implementação de estratégias de negócios orientadas a resultados em diversos canais. Já foi membro efetivo de conselho consultivo de empresa de tecnologia, atuou como representante da indústria em entidades setoriais e participou de vários projetos de grande relevância, entre eles aquisições de empresas e implementação de Políticas Comerciais e Programa de Relacionamento. É palestrante em Congressos nacionais e internacionais e tem artigos publicados em revistas. Dê sua opinião sobre o artigo ou faça sugestões para nossos colunistas, envie seu e-mail.