Imagine a cena: Você é um jovem adulto chegando à universidade para a sua aula favorita. Hoje será o dia da entrega da prova final. A sua expectativa é alta, pois tanto o professor quanto o conteúdo da disciplina têm sido muito motivadores.

O professor está entregando o resultado do exame final e a sua nota foi um pouco acima da média para passar. Desanimador! Ao sair da escola, descobre que para não chegar atrasado a sua aula preferida, você estacionou em local não permitido e acabou levando uma multa. No caminho de casa, querendo desabafar com seu melhor amigo, faz uma ligação e recebe como resposta “cara, agora não dá, me liga mais tarde!”. Como você se sentiria depois destes episódios acumulados em um mesmo período? Frustrado? Rejeitado? A vida não está sendo generosa, seu professor querido e admirado parece não gostar de você. Ou, olharia esta mesma situação como um ponto de interrogação. Quem sabe precisa ter mais atenção, estudar mais, ser mais cuidadoso na hora de estacionar o carro, entender que seus amigos não estão disponíveis 24 por 7. Qual das duas reações seria mais compatível com você?

 A professora da Universidade de Standford, Carol Dweck, define, em seu livro “Mindset: A nova psicologia do sucesso”, o mindset como crenças que as pessoas têm sobre a natureza das características humanas. Especificamente, o conceito de mindset está centrado na crença de poder ou não alterar os traços ou as características pessoais. Se as pessoas acreditam que os traços – como inteligência, personalidade, habilidade esportiva, musical etc. – não são controláveis e por isso não podem ser mudados, elas endossam o mindset fixo. Se, por outro lado, as pessoas acreditam que essas características são controláveis e mutáveis com esforço, elas fazem parte do mindset de crescimento.

 As pessoas que acreditam que nasceram inteligentes e que essa capacidade inata é definitiva usam preferencialmente o mindset fixo. Elas sabem que são capazes, gostam de ser admiradas pelo que sabem, e se sentem frustradas com o erro, além de entenderem as críticas como ofensas pessoais. No caso do jovem adulto que teve um dia ruim, se ele tiver mindset fixo, a sua reação é uma sucessão de pensamentos negativos. Se sentirá frustrado, perdido, traído pelo melhor amigo que não o atendeu, acha que o professor da sua matéria preferida é um sacana. Olha para o mundo como se fosse uma enorme conspiração contra ele.

 Por outro lado, existem pessoas que sabem analisar os fatos reais de uma maneira mais positiva. E entendem que podem mudar drasticamente a maneira como pensam. E, com isso, podem alterar suas crenças. “Não é o mundo que está conspirando contra mim. Sou eu mesmo que preciso mudar. Ser mais atento e cuidadoso!” Estas são pessoas que ficam no extremo oposto do espectro do mindset. São entituladas de mindset de crescimento. São pessoas que sabem trabalhar com seu grau de atenção e comprometimento para fazer uma mudança deliberada. Ao contrário das pessoas de mindset fixo, essas pessoas entendem que as críticas e os erros são essenciais e representam um alerta para que aprendam mais, esforcem-se mais e se comprometam mais para chegar ao objetivo traçado. Além de se inspirarem no sucesso de outras pessoas que estão em patamares de excelência superior aos seus. Na verdade, somos uma combinação dos dois tipos de mindset. O que precisamos perceber é qual deles é mais predominante, pois, será ele que determinará a maneira como penso e reajo frente aos desafios do dia-a-dia. O mindset praticamente permeia em todos os momentos da nossa vida. Quer seja na escolha de palavras e atitudes, quer seja na interpretação de como eu leio um anúncio ou um artigo e me posiciono com relação ao que li.

 A repetição de novos hábitos gera novos comportamentos, novas capacidades que formarão novos caminhos neurais que, ao se sedimentarem, se tornarão novas crenças. Um mesmo cérebro, mas com opções de caminhos neurais pode gerar dois tipos de mindset

Solange Mata Machado

Solange Mata Machado

Solange Mata Machado é diretora-executiva da Imaginar Solutions, doutora e mestre em inovação e competitividade pela FGV com pós-doutorado (pós-doc) em neurociência aplicada à tecnologia pela UFMG. Engenheira elétrica com BS pela Universidade Columbia (EUA) e especialização em empreendedorismo e inovação pela Universidade Hitotsubashi (Japão), pela Universidade Renmi da China, pelo Technion – Instituto de Tecnologia de Israel,pela Universidade Yale (EUA), pela Babson College (EUA) e pela Creative Education Foundation (EUA). Dê sua opinião sobre este artigo ou faça sugestões para nossos colunistas, envie seu e-mail. Neurociência na Tecnologia

Solange Mata Machado colunistas@partnersales.com.br