Especial
Crédito
Samira Sarraf
Publicado em 11/06/2012 às 11:42
Saiba como utilizá-lo
Recentemente os bancos públicos cederam à insistência do Governo Federal e baixaram as taxas de juros, porém a diferença ainda não pode ser percebida pelos solicitantes e as taxas não estão tão baixas quanto o governo deseja. Saiba quais bancos baixaram as taxas e quais as opções de créditos disponíveis no mercado
De acordo com o Banco Central, o saldo total dos empréstimos e financiamentos atingiu R$2.1 bilhões em abril deste ano e a relação crédito/PIB alcançou 49,6% no mesmo mês. Existe uma pressão do Governo Federal para baixar a taxa de juros bancários para 2% e dessa forma incentivar o consumo para aquecer a economia do Brasil. Os bancos públicos anunciaram recentemente baixa nas taxas para empréstimos. O Banco do Brasil, que tinha uma taxa mensal no cheque especial a partir de 9,13%, diminuiu a taxa para a partir de 3,94% ao mês. A taxa para Desconto de Títulos do BB foi de 1,45% a.m. para 1,26% a.m., a da Caixa encontra-se em 1,25%. A Caixa possui ainda a taxa de 0,94% a.m. no GiroCaixa Fácil. “Posso dizer que as taxas de juros têm demonstrado uma queda nos últimos tempos, não tão expressiva quanto é divulgado, mas percebemos que existe um esforço em termos de taxa de juros para estimular a economia”, expõe Luiz Ricardo Grecco, consultor da unidade de Inteligência de Mercado do Sebrae-SP, deixando claro que ainda não vê grandes perspectivas de desempenho econômico para os próximos meses. O Sebrae colabora com o empresário para entender que tipo de financiamento é mais adequado para sua necessidade.
A concessão de crédito por meio de instituições bancárias, financeiras e outros depende de alguns fatores e não segue uma regra única. Em bancos nos quais a pessoa jurídica possui conta, por exemplo, o valor da concessão e dos juros pode ser baseado no relacionamento de confiança que o banco tem com o cliente. Em outros casos, o banco pode também exigir que o solicitante seja correntista.
Existem alguns passos importantes que devem ser realizados com muita atenção antes da busca pela concessão de crédito. O primeiro passo é fazer um planejamento para saber quanto será necessário e como o dinheiro será empregado. “A empresa precisa vislumbrar uma oportunidade de negócio e fazer uma simulação em relação a essa oportunidade, quanto pode render, quanto de investimento ela necessita e qual o tipo de retorno trará”, explica Grecco. “Esse planejamento é uma preparação da empresa para tomar o recurso e conseguir cumprir aquilo que foi determinado no contrato de financiamento. O que observamos é que quanto menos a empresa se planeja mais decisões equivocadas ela tende a tomar”, completa. O consultor do Sebrae explica que o planejamento tem outra função muito importante, que é a de não deixar o solicitante suscetível às ofertas que o banco faz, pois nem sempre o que o banco oferece é o melhor para a empresa naquele momento. “Com o planejamento, a empresa vai saber que tipo de prazo de pagamento é conveniente, assim como as taxas de juros mais adequadas, porque nem todo projeto aceita qualquer taxa de juros”, reforça.
Outro ponto fundamental é ter definido onde será utilizado aquele crédito e aplicar o que foi planejado. “É importante que a busca pelo crédito tenha uma finalidade muito bem analisada e projetada, e que o mesmo seja utilizado para o fim específico a que se destina”, aconselha Mauro Pizzolatto, sócio-diretor de Pizzolatto Advogados Associados.
O planejamento também tem outra finalidade já que pode ser solicitado pelo órgão de concessão do crédito. Com relação à documentação solicitada na hora da análise, ela varia de órgão para órgão e em relação à linha de crédito utilizada. A primeira exigência por parte do Banco do Brasil é que o solicitante seja correntista. A partir daí os documentos vão de acordo com o produto solicitado. A documentação solicitada pela Caixa também vai de acordo com a solicitação e a lista de documentos necessários pode ser encontrada no site do banco. O Santander também solicita conta aberta no banco. “Todo cliente deve fornecer documentos e dados básicos para obtenção de crédito, por exemplo: faturamento, documento societário, IR dos sócios, etc.”, exemplifica Cristiane Nogueira, superintendente executiva de Produtos para Pequenas e Médias Empresas do Santander.
Ainda com relação a documentação exigida, é importante saber o motivo de tal solicitação e a importância em concedê-las. “A falta de transparência de informações é o principal fator de elevação da taxa de juros”, explica Grecco, do Sebrae. Em alguns casos os bancos podem solicitar balanços financeiros, atividade que muitas vezes não é realizada pela micro e pequena empresa e pode atrapalhar quanto ao fornecimento de crédito, pois o banco identifica alto risco na falta de documentação o que leva ao aumento da taxa de juros. “Atualmente, o cenário de cautela que os concedentes têm adotado vem em razão do aumento da inadimplência, o que tem gerado uma análise mais detalhada da capacidade de pagamento das empresas que buscam créditos, associado com exigência de garantias”, explica Mauro Pizzolatto. É importante que a empresa se esforce para criar um relacionamento com o banco para diminuir a percepção de risco. “Essa posição da empresa em tratar o banco como parceiro e trocar informações pode ser muito saudável, não só no relacionamento de curto, mas também de longo prazo”, completa Grecco.
Documentos que podem ser solicitados:
• Documentos relativos à constituição da empresa (contrato social);
• Documento societário;
• IR dos sócios;
• Faturamento;
• Último balanço patrimonial.
Podem ser exigidas garantias pessoais dos sócios como:
• Aval
• Matrículas de imóveis
• Certidões negativas
• Certidões forenses
A redução das taxas ainda é muito recente e não há retorno das empresas em termos de redução de custos. “O que nós observamos é que a maioria dos financiamentos das empresas utilizam parcelamento do fornecedor. Como isso não passa pelo banco, ele diretamente não vai sofrer redução de custo com base na diminuição das taxas”, afirma Grecco. De acordo com estudo do Sebrae, os cinco tipos de crédito mais solicitados são:
1º - Pagamento de fornecedores;
2º - Cheque especial e cartão de crédito, que vai sofrer algum impacto da redução de juros;
3º - Cheque pré-datado, que se confunde com pagamento de fornecedores a prazo;
4º - Factoring;
5º - Desconto de duplicata e título.
“Dos itens mencionados, o único que sofreu impacto é o 2º. Pode ser que ofereça algum tipo de vantagem em termos de juros porque é uma linha fácil, ou de utilização automática. Você não precisa passar por um processo de avaliação toda vez que fizer a solicitação. Mas os outros itens não passam por um agente financeiro”, explica Grecco.
O Banco do Brasil oferece uma linha completa de produtos e serviços para as pequenas, médias e grandes empresas, com linhas de crédito para capital de giro e também para investimento. Essa linha inclui: BB Giro Rápido, BB Giro Empresa Flex, BB Giro Cartões, BB Giro Recebíveis, Antecipação de Crédito ao Lojista (ACL), BB Microcrédito Empreendedor, BB Crédito Automático PJ; e para linhas de investimentos oferece o Cartão BNDES e o Proger Urbano Empresarial. “O BB Crédito Empresa financia a aquisição de equipamentos de informática, máquinas, material de construção e veículos novos para empresas com faturamento bruto anual de até R$ 60 milhões”, explica Adilson Cruvinel, executivo do Banco do Brasil. Dentro dessa opção é possível financiar até 100% do valor do bem, desde que o valor mínimo para financiamento seja R$1 mil.
A Caixa oferece opções dentro das seguintes linhas de créditos: Antecipação de Receitas, Financiamentos, Capital de Giro - Cheque Especial PJ, Proger Investgiro, Conta Garantida Caixa, Giro Caixa, Crédito Especial Empresa e Giro Caixa Fácil -, Microcrédito Produtivo Orientado Crescer Caixa, Comércio Exterior, entre outros. “Existem linhas específicas, por exemplo, para investimentos, ou seja, dependendo da necessidade e destinação dos recursos, será possível atender à empresa ou determinado segmento”, esclarece Fernando Tadeu da Costa Passos, gerente Regional da Caixa para Pessoa Jurídica.
“Antes da concessão do crédito é importante que o cliente tenha a linha adequada à finalidade e a seu fluxo de caixa”, explica Cristiane Nogueira, do Santander, que oferece Antecipação de Cartões, Desconto de cheques e Duplicatas, Cheque Empresa Plus, SuperGiro Premium além da Antecipação de Recebíveis. Para soluções específicas para o canal a executiva oferece outras opções. “Dependendo da finalidade temos algumas ofertas. Para a compra de computadores, o mais adequado são linhas de CDC e Leasing; no caso de giro, antecipação de seus recebíveis”.
Uma alternativa regional é o Centro de Apoio aos Pequenos Empreendimentos (Ceape) que atua em: Pernambuco, Maranhão, Paraíba, Sergipe, Piauí, Bahia, Goiás, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul e Espírito Santo. O Ceape vem para ajudar a vida do micro e pequeno e, até mesmo, do empresário informal da região. José Ventura, diretor Executivo Ceape-PE, conta que antes do Ceape o microempreendedor não tinha apoio governamental. “Ninguém emprestava dinheiro a eles, até mesmo entre os formalizados poucos tinham acesso à rede bancária, principalmente a convencional particular. A distância era muito grande entre o banco e o empresário”, conta.
O Ceape, que começou no Rio Grande do Sul, teve em Pernambuco uma ajuda inicial concedida pela Unicef, que enxergava que ajudando os pais carentes atingiria de alguma forma as crianças carentes. A organização sem fins lucrativos já concedeu, em 20 anos de existência, aproximadamente R$280 milhões para 195 mil pessoas. “Qualquer pessoa que queira dinheiro emprestado vai até uma unidade do Ceape portando carteira de identidade, CPF e comprovante de residência e formaliza o seu pedido. É realizado um cadastro simples. O agente de crédito, em posse da solicitação, visita esse empreendedor e faz uma avaliação da estrutura econômica e financeira dele. A partir dos números levantados é definido o valor do atendimento, que pode ser igual ao solicitado, menor ou não ocorrer, pois pode estar negativado em serviços de proteção ao crédito (SPC)”, conta José Ventura, explicando que como trabalham com dinheiro emprestado do BID, BNDES, Oikocredit (órgão internacional), a instituição precisa ter certo controle sobre os empréstimos. O crédito é concedido em no máximo 72 horas. Outro fator importante é que o Ceape apenas aceita solicitações de empresas que tem no mínimo seis meses de atividade. “A nossa taxa de juros é de 3.02%. Não é cobrada nenhuma taxa fora os juros”, informa.
A Grenke, por sua vez, oferece um sistema de crédito para o cliente final com o objetivo de facilitar o trabalho do canal. “É estabelecido um contrato entre o locatário (cliente final) e a Grenke para a locação de um equipamento que o cliente escolheu através de um revendedor. A revenda, então, fornece o equipamento para o cliente e procedemos ao pagamento da nota fiscal de venda para a revenda enquanto que o locatário usufrui do equipamento mediante o pagamento das parcelas por um período previamente acordado”, explica Sérgio Nunes, responsável pela Grenke Brasil. A empresa compromete-se a decidir sobre o financiamento em apenas 20 minutos para valores entre R$1 mil e R$120 mil.
Dificuldades e Dicas
Para José Ventura, do Ceape-PE, não existe dificuldade para se conseguir crédito, partindo do princípio que existem hoje diferentes opções de organizações para obter a concessão. “Nossa dica é que a empresa tenha registro das suas atividades, compras, vendas, etc. e que não compre mais do que pode. É preciso controlar, entender que o lucro também é para reabastecer o estoque. Também sugerimos que, ao invés de comprar fiado ou com cartão de crédito, que use essa ajuda de crédito para negociar a compra à vista e evitar compras a prazo”, aconselha Ventura.
O Banco do Brasil oferece profissionais capacitados para orientar os empresários na escolha da melhor linha de crédito que irá atendê-lo. O BB informa que as maiores dificuldades encontradas pelo empresário estão na apresentação da documentação em dia para aquisição do crédito e na escolha da linha mais adequada à sua necessidade. “A empresa deve ficar atenta ao vencimento das parcelas, evitando o atraso no pagamento dos empréstimos. Os atrasos geram encargos de anormalidade e podem acarretar na suspensão do atendimento creditício ao cliente”, diz Adilson Cruvinel. “As empresas também devem comparar as taxas de juros e prazos de pagamentos oferecidos antes de tomar a decisão de qual empréstimo utilizar e verificar se os valores das parcelas estão dentro da capacidade de pagamento da empresa”, finaliza.
O Sebrae-SP indica que o canal utilize os recursos dos bancos oficiais para alguns investimentos que são estimulados como o investimento no setor produtivo encontrado no Proger. “O setor de TI é daqueles setores que o governo tem interesse em estimular, que tem bastante valor agregado em termos de serviço. Quanto aos produtos direcionados, é possível encontrar alguns na Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), onde existem recursos até de subvenção como ‘os famosos fundos perdidos’, e também programas do BNDES que atendem a esse segmento como o Prosoft, porém esse faz financiamentos a partir de um milhão de reais”, indica Grecco.
“O Banco Santander se preocupa na oferta adequada para cada cliente”, conta Cristiane Nogueira, complementando que o ramo de atuação, estágio da empresa e o destino do crédito são analisados para a correta concessão de crédito.
A Caixa informa que é importante e fundamental ter toda a documentação em dia na hora de apresenta-la e reforça a importância do planejamento antes da solicitação e, mais ainda, de executá-lo. “Tendo como base o plano de negócios, a dica é segui-lo com a maior disciplina possível, revendo de imediato seus planos, se necessário”, salienta Fernando Tadeu da Costa Passos.
No caso de não haver a possibilidade de cumprir algum prazo concedido para pagamento do crédito é importante renegociar os prazos. “Na hipótese de atrasos, avaliar dentre seus compromissos financeiros aqueles que possuem maior impacto negativo para a continuidade dos negócios e os riscos associados”, comenta Pizzolatto.
“O patamar dos juros cobrados ainda é elevado. A redução dos juros por parte dos bancos públicos está levando bancos privados para o mesmo inevitável caminho. A questão crucial é alcançar o equilíbrio e a medida certa no corte dos juros, sob pena do risco inflacionário, sobretudo para 2013, quando acredito se pode projetar um aquecimento na economia”, reflete Pizzolatto sobre as mudanças recentes.
Para não correr o risco de um resultado negativo pós-concessão de crédito é importante fazer um planejamento e buscar aconselhamento de entidades experientes, como é o caso do Sebrae. Porém, o plano não pode servir apenas como base ou prova para demonstrar à instituição financeira. É importante segui-lo para não cair na armadilha do juros sobre juros. Informe-se, tenha todos os documentos em mãos e cumpra os prazos para manter o crescimento do seu negócio.

